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Momade está a "atrasar o relógio" para continuar no poder?

Há mais de dois anos que membros e ex-guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) pedem a demissão voluntária de Ossufo Momade da liderança do partido, devido à crise instalada no seio da perdiz. Má gestão, falta de pagamento de pensões e subsídios, perseguições internas e suposta inoperância constam das reivindicações.

Os ex-guerrilheiros, que lideram o movimento no país, voltaram este ano a exigir a saída de Momade. Edgar Silva, coordenador nacional da autoproclamada comissão de gestão da RENAMO, fez um ultimato: "Nós vamos dar um limite, até finais deste semestre, se as coisas não tomarem o destino que nós pretendemos, vamos agir de outra maneira", disse.

A antiga milícia da RENAMO diz estar a preparar um congresso extraordinário para a retirada do atual presidente. Mas Ossufo Momade disse há dias em Nampula, no norte de Moçambique, não estar surpreso com a atual crise no seio do partido que lidera.

"Isto não está a iniciar com Ossufo Momade, mesmo com o presidente Dhlakama já tivemos casos idênticos. As crises aconteceram, mas nunca paramos. Aquilo que vocês estão a acompanhar, alguém a falar mal de Ossufo, é a democracia. Se nós não fossemos democratas ninguém teria forças de falar de nós, porque sabem que eles não vão ser nossos", afirmou Edgar Silva.

Ainda de acordo com a publicação, apesar de Ossufo Momade anunciar que vai abandonar a liderança que assume desde 2019, depois da morte de Afonso Dhlakama, sem referir datas, assegurou que continuará membro do partido.

Por isso, apelou à união e coesão entre os membros da RENAMO, afirmando estar convicto de que, com trabalho conjunto, a organização poderá alcançar a vitória nas eleições de 2028/2029.

O analista e académico Wilson Nicaquela entende que esta é uma estratégia de Momade para "atrasar o relógio" e continuar, assim, no poder. "Na verdade, ele procura ir fazendo uma gestão de expectativas para que as pessoas menos atentas compreendam que ele não pretende continuar no partido, mas é um anúncio desnecessário porque é essa intenção dos que reivindicam a renúncia de Ossufo Momade à presidência da RENAMO pretendem", argumenta.

"Eles são devidamente informados ao término do seu mandato e provavelmente a olhar pelas crispações internas não havia condições morais e nem materiais para o próprio Ossufo Momade se recandidatar em 2029", acrescenta Nicaquela.

O analista lembra ainda que o sonho do oprimido é tornar-se opressor. "Acho Ossufo Momade uma pessoa menos inteligente e, sobretudo, que sofre tantas influências e está seguramente a reproduzir o mesmo comportamento e mesmas atitudes a que ele mesmo se propunha a contestar. Portanto, o sonho do oprimido é de se tornar opressor e é isso que estamos a assistir no comportamento do senhor Ossufo Momade", conclui.